Michael Soares da Silva

(Cap. 06) A montanha mágica.

Se você chegou no sexto capítulo do Der Zauberberg de Thomas Mann (1927) deve ter se surpreendido com um conteúdo louvável para as humanidades. Basta relembrar das conversas entre os primos Hans Castorp e Joachim Ziessen; ou quem sabe dos diálogos-discursos de Lodovico Settembrini, italiano, repleto de erudição, humanista, defensor dos clássicos, verdadeiro amigo dos primos e da humanidade que se tornou popular no capítulo anterior, o quinto. Popular mesmo é o sanatório Berghof para tuberculosos nos alpes suíços, onde o tratamento médico, para a época, era excelente. E, ainda, o que diríamos do AMOR de nosso herói, Hans Castorp, por Clawdia Chauchat, enferma com busto retratado por um dos médicos -o conselheiro Behrens.

Se, outrora, acentuarmos que o livro almeja o cume, isso é mesmo exponencial, e, leva ao regresso de Joachim Ziessem ao sanatório Berghof, e, ao acometimento da morte dele. O livro almeja o cume, pois cada capítulo que passa é mais volumoso; assim como os acontecimentos que pairam sob a ótica filosófica, sobre o tempo. Diversos outros exemplos, o amor, os estudos, a profissão, o ócio e o mundo produtivo "da planície" são temas filosóficos cultivados pelos internos desse famoso sanatório. Surpreende que a ótica filosófica gaste, agora, no capítulo sexto, páginas e mais páginas para a religião: sobre assumir um crime antes de ser condenado, pois a redenção cívica viria da tomada de consciência, ainda que a tortura para se assumir um crime fosse um método. Esse tema religioso implica na sociedade, e sua organização, por isso que o tema recebe certa contestação.

Trata-se do penúltimo capítulo de "A montanha mágica" que visa, ao ver o volume da obra, um grand finale. O projeto do livro permite tirar impressões gerais, e, não por se prever tornar-se mais denso, mais compacto, contudo mais profundo, certamente, tais assuntos cooperam para o projeto do livro que embora busque uma suspensão física -de um recém-formaso em engenharia (Hans Castorp) que abandona a vida nas planícies de Hamburgo para visitar o primo enfermo na Suíça e se descobre doente -mas uma suspensão do tempo, psicológica, uma vez que os assuntos das humanidades discutidos nos alpes suíços colocavam em questão os padrões de vida na modernidade; ampliando  o conceito de "vida" para a vida dos planetas, por exemplo (Cap 05). Por ultimato, Thomas Mann nos guia a uma suspensão da própria obra, nenhum dos polêmicos temas buscam uma resolução pronta, sendo uma problemática do início do século XX não se esgota, mas procura a branda explanação de ideias que pairam na atmosfera europeia, do momento, e se condensam nas vidas das personagens do sanatório Berghof em Davos.

O capítulo 06, ainda é inovador por introduzir mais um personagem, Leo Naphta ao enredo. Também, por trar personagens. Esse deslocamento não é muito confortável, porque Joachim Ziessen era importante desde o começo da estória. Foi ele o motivo de Hans Castorp largar o norte da Alemanha para o visitar. O jovem Joachim deixa, depois de um ano, a aldeia de Davos-Platz para o serviço militar, recebendo uma controvertida auta-médica. É nesse capítulo que Hans Castorp recebe a visita do tio-avô Tienappel -responsavel por esse jovem adulto. Mas, a estrela do sexto capítulo é Naphta, professor, conservador, judeu, religioso que toma posições nos diálogos com Lodovico Settembrini acaloradas. Hans (como o primo Ziessen ousou chamá-lo na despedida, com um forte aperto de mão) presencia os diálogos Naphta-Settembrino; e, se coloca confuso; "nosso herói" apenas escuta atento.

Michael Soares da Silva
  • Michael Soares da Silva Estudante de Letras
  • Estudante de Letras ingresso na Faculdade de Filosofia e Letras da USP em 2018 para pleitear uma vaga em lingua estrangeira no Departamento de Línguas Modernas.

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